À primeira vista, quando recebi a notificação da Apple Music a informar sobre nova EP de Hernâni da Silva, pensei que fosse mais daqueles trabalhos musicais que ele usava para exibir skills de punchlines, letras que processas depois de muito tempo, mas eu estava enganado, e na primeira faixa, deu para notar que uhmmm temos aqui algo diferente.
Mas vamos ao review.
Faixa 01 – Nhandayeyo (socorro).
A música inicia-se com um instrumental suave, seguido de uma interpolação do coro de “A Marcha”, do conceituado rapper Azagaia. Em vez de mandar os criminosos para fora, Hernâni pede que os mandem para dentro (do xadrez).
Na faixa, ele aparenta estar a fazer o papel de alguém que está cansado de ver o índice de criminalidade a aumentar drasticamente no seu bairro, nas ruas da cidade, nas festas, nos mercados, e grita “nhandayeyo”, pedindo socorro a quem pode ouvir e realmente agir.
“Se há um sítio onde se está a roubar, é Moz”, ele canta num dos primeiros versos da segunda parte da música, seguindo com uma crítica a nós, que mesmo vendo um crime a acontecer em plena luz do dia, ignoramos, dando mais confiança aos criminosos para não pararem com as suas actividades e chegam até a ganhar força e coragem de vender-nos algo que nos roubaram. Ele também reclama da injustiça de que os que fazem mal raramente ficam muito tempo presos.
Não é algo que estamos acostumados a ouvir dele, mas é algo que realmente precisávamos de ouvir. E também não é algo que esperamos que ele continue a seguir sempre, mas, de vez em quando, pode realmente moldar a sociedade, se em vez de apenas ouvirmos a música, passarmos a agir quando alguém pedir socorro.
Faixa 02 – Diz Não.
Essa música apresenta uma narrativa intensa sobre sobrevivência, pressão social e escolhas. Hernâni inicia com o sample de uma reportagem, presumivelmente da Miramar, criando um enquadramento realista. Quando o microfone lhe é passado para comentar o crime, ele assume a “voz” do próprio criminoso.
A faixa é composta por três narrativas. A primeira retrata um jovem de 12 anos que cresce na miséria e recorre ao roubo nas ruas da cidade para sobreviver. A segunda acompanha um indivíduo preso num sistema de trabalho na banca, sem perspetivas de progressão, que acaba por explorar brechas para enriquecer. A terceira mostra alguém que falha no negócio e entra no crime como forma de cobrir os prejuízos causados na tentativa de alcançar riqueza.
O ponto forte da música não é a capacidade de storytelling de Hernâni, mas a mensagem transmitida no coro. Hernâni não julga, ele entende os criminosos pelos contextos e motivações. Ainda assim, é firme ao afirmar que dificuldades não devem servir de justificação para o crime, apelando imensas vezes para que se diga “não” a esse caminho.
No fundo, a música funciona como um alerta, dizendo que qualquer pessoa pode ser levada a esse limite, mas nem todos são obrigados a fazer essa escolha, porque “a justiça tarda, mas não falha”.
Faixa 03 – Isso é um roubo (c/ Jay Arghh)
Quando comecei a fazer o review deste EP, o plano era levar três dias, mas tudo congelou quando chegou a hora de escrever sobre esta faixa, porque é difícil avaliar uma música de intervenção social a este nível sem entediar o leitor.
Aqui Hernâni observa como é que o país está a ser conduzido e usa a música para despertar consciências, focando na necessidade de maior justiça social e transparência, desde a empregabilidade dos jovens, habitação, entre outros.
“Não há conversa sem expressar angústia” é o resumo daquilo que se fala: das lamentações que partilhamos, como se fosse uma competição para ver quem está a sofrer mais, e de como nos esquecemos de tudo com conversas de futebol e planos de vida, enquanto trocamos uns copos de cerveja.
Faixa 04 – Era boa pessoa.
“You either die a hero, or live long enough to see yourself become the villain.” traduzindo para “Ou você morre como um herói, ou vive o suficiente para se tornar o vilão”.
É com essa frase icónica de Harvey Dent no filme The Dark Knight que Hernâni começa a faixa.
Ele faz, nesta faixa, o papel de um jovem que vê outros alcançando vitórias e sucessos usando meios ilícitos. Ele lamenta e questiona-se se é justo ou não, se as pessoas não conseguem ver que isso não está certo.
Reflete sobre a corrupção inevitável, a fragilidade da virtude e a ideia de que o tempo e as circunstâncias podem transformar os mais nobres ideais em escuridão. Isso pode levar alguns a clamarem por “nhandayeyo”, enquanto são roubados, sem conseguirem dizer não e continuarem a ser boas pessoas.
Veredito:
Este trabalho é diferente (no bom sentido). 4.5/5, o único pecado foi terem sido poucas faixas. Esta é a primeira versão deste review, de certeza que voltarei aqui e vou rescrever, porque sinto que não foi o suficiente.



